A compilação do kernel Linux pode ficar significativamente mais rápida já na próxima versão do sistema. Nesta segunda-feira (14), o engenheiro Lorenzo Stoakes, da ARM, enviou à lista de discussão do kernel (LKML) a segunda versão de uma série de patches que elimina gargalos históricos do processo de build — e a expectativa é que o conjunto entre no Linux 7.4.
Se aprovadas, as mudanças entregam ganhos mensuráveis: um build completo com todos os módulos habilitados (“allmodconfig”) ficou até 36% mais rápido, enquanto compilações incrementais — aquelas executadas após pequenas alterações no código — aceleraram cerca de 70%. Em testes “noop”, em que não há nada novo para compilar, a melhoria chegou a aproximadamente 90%.
O que muda na versão 2 dos patches
De acordo com Stoakes, dois dos patches originais já foram aceitos e incorporados ao código principal do kernel. O restante da série passou por revisão: correções, rebasing sobre a árvore Git mais recente do Linux e um ajuste que torna o front-end paralelo do compilador Rust uma opção ativável (opt-in), além de outras alterações menores.
Em comentário à comunidade, o engenheiro afirmou que as mudanças são “largamente incontroversas” e que há boas perspectivas de integração no próximo ciclo de desenvolvimento, o Linux 7.4. Confirmada a revisão, os patches entram no kernel durante a janela de merge da versão.
IA identificou os gargalos — e o código “horrível”
A série estreou no início de setembro com 23 patches voltados a reduzir o tempo perdido em tarefas single-thread durante a compilação. O diferencial do método: Stoakes recorreu a um modelo de linguagem de grande escala (LLM) para mapear os gargalos e propor soluções em componentes como Kbuild, kallsyms, modpost, objtool, mksysmap e o sistema de build em Rust.
O próprio engenheiro reconheceu que o resultado da automação exigiu filtro humano. “Um LLM foi usado para primeiro determinar onde estavam os gargalos e depois descobrir como melhorá-los. Ele gerou muito código, grande parte horrível”, escreveu Stoakes ao publicar a v1, destacando que auditou e reescreve extensivamente o material antes do envio. Por transparência, cada commit carrega a tag “Assisted-by”, sinalizando a participação da IA.
Por que isso importa
O tempo de compilação do kernel é um dos principais custos da rotina de desenvolvedores, distribuições e sistemas de integração contínua (CI): quanto mais lento o build, mais demoram testes, correções e a entrega de novos patches. Ganhos de dois dígitos, verificados em diferentes hardwares e configurações, impactam diretamente o ritmo de desenvolvimento do kernel — sobretudo nos builds incrementais, o caso mais comum no dia a dia.
O episódio também reacende o debate sobre o uso de IA em projetos críticos de código aberto. Neste caso, o fluxo combinou geração automatizada com revisão manual, verificação de corretude em builds e kernels reais em execução e validação manual de desempenho — um modelo que pode servir de referência para futuras contribuições assistidas por IA.
A série v2 completa está disponível para revisão na lista de discussão do kernel Linux (lore.kernel.org). A expectativa é que, após a análise da comunidade, os patches sejam integrados ao Linux 7.4. Os números de desempenho foram divulgados pelo autor da série.

Carlos Araújo
Especialista em tecnologia e fundador da SuaInternet.COM. Com sólida experiência em desenvolvimento de software e inteligência artificial, dedica-se a criar soluções de alta performance e sites otimizados que conectam marcas a resultados. Entusiasta de sistemas Linux e automação, partilha aqui análises técnicas e tendências do ecossistema digital.